terça-feira, 10 de novembro de 2015
meu parto
Me sinto em convulsão. Já são dez da manhã. Todo meu corpo trabalha para isso. Desde cinco da manhã que trabalha para realizar o parto. A cada três minutos, minha barriga se contraí e uma dor atravessa meu corpo feito onda, carregando de cada vez uma partícula do meu ser. Eu não sei mais quanto tempo dura um minuto. Tem vez que dura apenas um minuto. Outra que dura toda uma vida. E outra que dura o correr de um rio. Um rio de águas turvas e profundas. Minha pele estremece. Penso a todo momento: eu quero que acabe. Me pergunto como fui parar ali. Vou entendendo lentamente que meu corpo convulsionado é quem comanda a situação. Deixo lentamente o controle. Sinto minha pelve se abrindo. Eu toda por dentro me abrindo. Como uma flor brotando. Meus labios se abrindo. Eu quero voltar. Quero comandar meu corpo, mas não tem mais volta. Não sinto medo, apesar. Sinto que é assim. Minha barriga toda cai, meu corpo parece a maçã caindo da árvore, meu corpo é a completa lei da gravidade. Tudo pressiona para baixo. Todo meu ser quer sair pela minha vagina. Não tem mais volta. Duas da tarde. Dilatação total. Não sinto mais dor. Eu sou a flor se abrindo. Sou o momento sublime de uma nova existência brotando na terra. Eu sou deus. Eu sou mulher. Deus é uma mulher. Não sei mais o que acontece. Grito. Nada faço com consciência. Apenas gritar foi uma escolha minha. Meu corpo entrega ao mundo uma nova vida. Me parto ao meio. São dois os paridos. O sublime em forma de nascimento.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
crônica de uma mãe insone
somos um micro planeta em um universo gigante. ou não. ou estamos vivendo em uma realidade paralela e tudo isso é sonho. como diferenciar sonho de realidade? como saber o que existe ou não? de toda forma, a nasa descobriu semana passada uma tecnologia inteligente criada por, possivelmente, alienígenas. há vida além da terra. se pensarmos, somos, cada um de nós, uma partícula de poeira dentro de um grande pote que é o universo. há uma teoria que afirma que o ser é mais evoluído quanto menor for sua estrutura biológica, ou seja, quanto menor forem as necessidades desse ser. acho que meu filho é um ser evoluído que já abdicou dessa necessidade de dormir. são três horas e quarenta e dois minutos da madrugada. estou deitada num colchão de criança no chão, com um bichinho de pelúcia como travesseiro, porque já cansei de tentar fazer o bebê insone dormir. joaquim se revira na cama. deita de barriga pra cima, vira pro meu lado, enfia o dedo no meu olho e insiste em saber o que tem dentro da minha boca. vai ficando cada vez mais difícil fingir que estou dormindo. canso. joaquim, está na hora de dormir, são três da manhã. ele simplesmente vira para o outro lado e fecha o olho. o universo é mais! se revira, deita de costas e, milagrosamente, para. tá parado. começo a contagem. são três sequências de um a dez, contadas pausadamente, antes que eu possa ter certeza de que ele dorme. entre uma delas, confiro se ele está respirando, porque ele está realmente muito parado. tá vivo. e mais: tá dormindo! agradeço aos alienígenas. vou para minha cama. durmo em menos de um minuto. e sonho que estou colocando o joaquim para dormir. de novo e de novo e de novo....
domingo, 23 de agosto de 2015
passa
da infinidade das horas
do relógio que cisma em dar meio-dia
não importa o que aconteça
na metade de cada dia
das coisas que são tanto
que de tanto ser chega a doer
da pedra do corcovado
que parece que nunca sairá dali
mas ela sairá
demore uma nova era
ou apenas um novo prefeito
que cisme em ali passar um túnel
leme-urca
e então a pedra cairá
e do corcovado se dará uma nova passagem
do relógio que cisma em dar meio-dia
não importa o que aconteça
na metade de cada dia
das coisas que são tanto
que de tanto ser chega a doer
da pedra do corcovado
que parece que nunca sairá dali
mas ela sairá
demore uma nova era
ou apenas um novo prefeito
que cisme em ali passar um túnel
leme-urca
e então a pedra cairá
e do corcovado se dará uma nova passagem
domingo, 16 de agosto de 2015
domingo de sol
Catar conchas preciosas à beira-mar
E cavar um buraco na areia
Tão profundo quanto nossa capacidade física permitir
Enterrar as conchas e repousar nossos corpos no buraco
Esperar que a água gentilmente encha o buraco
E a areia lentamente o cubra
Até que permaneceremos submersos de areia
E nenhum outro ser humano será capaz de nos encontrar
Só as baratinhas
Que cavam túneis por toda a orla de Copacabana
E cavar um buraco na areia
Tão profundo quanto nossa capacidade física permitir
Enterrar as conchas e repousar nossos corpos no buraco
Esperar que a água gentilmente encha o buraco
E a areia lentamente o cubra
Até que permaneceremos submersos de areia
E nenhum outro ser humano será capaz de nos encontrar
Só as baratinhas
Que cavam túneis por toda a orla de Copacabana
domingo, 2 de agosto de 2015
as rodas
Daqui de onde me sento
Vejo confortavelmente as coisas que te agradam
Mas na prática é tudo mais difícil
Porque tudo é mais difícil na prática
Te passo o leite quando me pede o café
Me passa a manteiga quando sabe que prefiro o requeijão
Estamos a colocar a carroça à frente dos bois
Quando na verdade o que falta são as rodas
Vejo confortavelmente as coisas que te agradam
Mas na prática é tudo mais difícil
Porque tudo é mais difícil na prática
Te passo o leite quando me pede o café
Me passa a manteiga quando sabe que prefiro o requeijão
Estamos a colocar a carroça à frente dos bois
Quando na verdade o que falta são as rodas
quarta-feira, 29 de julho de 2015
complexo do lavalouças
A vida é isso
Esse eterno lavar e secar a louça
lavar e secar a louça lavar e secar a louça
Quando a todo momento buscamos um ponto de fuga
Um cavalo branco que desse com as patas na janela
E quebrasse toda a janela
E fôssemos capazes de montar o cavalo branco
- Mesmo que nunca o tenhamos feito
Pois crescemos na poeira da cidade -
E quando menos notássemos estaríamos numa praia
Todos nus nessa praia
Nós, seres humanos, e cavalos brancos
E que enfim pudéssemos lavar a louça no mar
Esse eterno lavar e secar a louça
lavar e secar a louça lavar e secar a louça
Quando a todo momento buscamos um ponto de fuga
Um cavalo branco que desse com as patas na janela
E quebrasse toda a janela
E fôssemos capazes de montar o cavalo branco
- Mesmo que nunca o tenhamos feito
Pois crescemos na poeira da cidade -
E quando menos notássemos estaríamos numa praia
Todos nus nessa praia
Nós, seres humanos, e cavalos brancos
E que enfim pudéssemos lavar a louça no mar
surtido
Como um grito
Foi assim que surgi na sua vida
E você me disse:
"Esperasse eu terminar o café
Assim no susto me engasgo"
Eu te digo que não há nada mais lindo no mundo do que nós dois
Você continua assistindo TV
O efeito surtido do grito passou
Foi assim que surgi na sua vida
E você me disse:
"Esperasse eu terminar o café
Assim no susto me engasgo"
Eu te digo que não há nada mais lindo no mundo do que nós dois
Você continua assistindo TV
O efeito surtido do grito passou
hoje comprei teu penico
as coisas todas do mundo tem pressa
já quase não lembro quando tinhas um mês
é tão pouco o tempo que recém nascemos
mexias os bracinhos tão devagar
como se o mundo todo fosse ainda
uma grande bolsa d'água
já quase não lembro quando tinhas um mês
é tão pouco o tempo que recém nascemos
mexias os bracinhos tão devagar
como se o mundo todo fosse ainda
uma grande bolsa d'água
carta da tua mãe
se você tivesse 24 anos eu te falaria
que todas as histórias de amor são iguais
e terminam - todas da mesma maneira
que tem dias que esqueço quantos anos tenho
ou em qual ano estou
porque não importa quanto tempo passe
nos sentiremos sempre como adolescentes
que não sabem o que fazer com o próprio corpo
com aquela sensação de que os braços são compridos demais para o dorso
te falaria que haverá dias que era melhor não ter saído da cama
que essa inclusive seria a melhor decisão para muitos outros dias
porque não importa se não formos mais crianças
mas a cama sempre parecerá o lugar mais seguro
mas não é. a cama, o lugar mais seguro
porque há o perigo em cada esquina
e os problemas que teimam em acontecer
até que percamos a paciência e soquemos a parede
por mais estúpida que seja essa atitude
afinal, a parede não tem culpa
e quem sai machucada dessa história toda
é a nossa própria mão
que todas as histórias de amor são iguais
e terminam - todas da mesma maneira
que tem dias que esqueço quantos anos tenho
ou em qual ano estou
porque não importa quanto tempo passe
nos sentiremos sempre como adolescentes
que não sabem o que fazer com o próprio corpo
com aquela sensação de que os braços são compridos demais para o dorso
te falaria que haverá dias que era melhor não ter saído da cama
que essa inclusive seria a melhor decisão para muitos outros dias
porque não importa se não formos mais crianças
mas a cama sempre parecerá o lugar mais seguro
mas não é. a cama, o lugar mais seguro
porque há o perigo em cada esquina
e os problemas que teimam em acontecer
até que percamos a paciência e soquemos a parede
por mais estúpida que seja essa atitude
afinal, a parede não tem culpa
e quem sai machucada dessa história toda
é a nossa própria mão
sexta-feira, 17 de julho de 2015
24 anos
eu pensava que chegaria até aqui e saberia muito mais do que sei
pensava em ter certeza e saber exatamente das coisas que se deve saber exatamente
às vezes, penso que o mundo todo errou
as coisas parecem ainda mais confusas do que sempre foram
não sei a hora em que olharei para trás e entenderei como aqui fui parar
acho que ninguém me respeita
mas, no fundo, eu também não respeito ninguém em troca
acho tudo uma grande piada, como se todos fossem irônicos e despretensiosos
espero que todos estejam a falar com ironias, pois só assim faria sentido
aquela marquinha de biquini da praia de ipanema me desabitou
no lugar vejo uma pele frouxa e esbranquiçada
ainda assim pareço dez anos mais jovem do que antes parecia
tenho 24 anos, mas não queria.
pensava em ter certeza e saber exatamente das coisas que se deve saber exatamente
às vezes, penso que o mundo todo errou
as coisas parecem ainda mais confusas do que sempre foram
não sei a hora em que olharei para trás e entenderei como aqui fui parar
acho que ninguém me respeita
mas, no fundo, eu também não respeito ninguém em troca
acho tudo uma grande piada, como se todos fossem irônicos e despretensiosos
espero que todos estejam a falar com ironias, pois só assim faria sentido
aquela marquinha de biquini da praia de ipanema me desabitou
no lugar vejo uma pele frouxa e esbranquiçada
ainda assim pareço dez anos mais jovem do que antes parecia
tenho 24 anos, mas não queria.
matando formigas
vou desviando pelo caminho
para matar o menor número possível
de formigas
veja bem o meu poder
sou eu quem decido
quem morre, quem fica
para matar o menor número possível
de formigas
veja bem o meu poder
sou eu quem decido
quem morre, quem fica
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