sexta-feira, 7 de abril de 2017

Trinta segundos

Não sabia como se comportar na minha presença, nem como encostar em mim. Tímido. Encostou a mão na minha perna e eu me arrepiei. Coisa boba. Eu, já escaldada, me arrepiando com tão pequena bobeira. Ficou três minutos com a mão na minha perna. O lugar parecia eletrizado. Eu contava da minha viagem pra Alemanha, perdi até as palavras. Minha perna formigava, a mão tremia, pele fria, mil átomos por milésimo de segundo. Tirou a mão e eu quis gritar: "Não, volta! Que tava bom!". Mas peguei a timidez. Nunca aconteceu antes. Paralisei sem saber o que fazer.

Agora era ele que me contava uma história, mas eu mal ouvia o que me falava. Qualquer coisa sobre um filme que tá passando no cinema sobre a Segunda Guerra Mundial. Ou não é filme, mas é só guerra. Cheguei mais perto. Joelho com joelho. Eletrizou de novo. Coxa com coxa. Cotovelo com cotovelo. Antebraços se esbarrando. Fiquei tão perto que quase não fazia sentido. Estava esquisito. Ele gesticulando e meu braço atrapalhando cada movimento. Perto demais e ele falando de sei lá o que com Muro de Berlim, Guerra Fria. Eu achava que era de Hitler, de Segunda Guerra, mas ele já tinha derrubado o muro.  

- Você entendeu? É coisa demais pra cabeça. - ele perguntou eufórico e sem saber aonde colocar a mão, agora que parava de gesticular.

Demorei exatos 30 segundos propositais para responder. Coisa demais pra cabeça. E, afinal, eu tinha uma teoria. Vi num filme de Tarantino. A gente encontra alguém especial quando consegue ficar em silêncio com aquela pessoa de forma confortável. Sem ter que preencher o vazio com baboseiras sobre tempo, política e etc e tal. Testei.

30, 29, 28...

A mão dele voltou para minha perna.

27, 26, 25, 24, 23...

Eu olhei bem no meio dos olhos dele. Eram bonitos, nunca havia reparado.

22, 21, 20...

Dobrei a perna, que ficou em cima da mão. Assim não me escapa.

19, 18, 17, 16...

Ele colocou meu cabelo para trás da orelha. Me derreti. Não era eu. Em qualquer outra época, pessoa, lugar ou espaço sideral, teria achado esse o gesto mais babaca do mundo. Mas hoje não.

15, 14...

Eu, a grande babaca da noite, sorri sem mostrar meus dentes.

13, 12, 11, 10...

Não conseguia mais respirar.

9, 8, 7...

Acho que minha barriga fez um barulho esquisito.

6, 5, 4, 3, 2, 1.


dezembro / 2012

Istambul

Três janelas, três grades.
A fumaça do Malboro é a única que passa.
Imagino me transformando em pássaro
- não importa gênero, tipo ou raça.
Meus braços viram asas e meu nariz bico.
Um pássaro pequeno.
(Tinha só que ser pequeno)
Atravesso a grade e bato as asas
Sem parar até chegar em Istambul.

Afinal, aqui ninguém se cansa
De ser quem é?



dezembro / 2012

Esperanças para o fim do mundo

Que se exploda
Em mil e cinquenta e nove pedacinhos.

1ª versão

Hoje acordei com preguiça de me apaixonar. Que preguiça que dá! Sentir frio na barriga toda vez que fala comigo. Um alerta que percorre todo o corpo quando o vejo de longe. E a preocupação. Logo hoje que tô com essa cara amassada. Cara de cotia. E eu sei onde isso tudo termina. Termina com a gente sentado num sofá vendo um filme na televisão no maior tédio que todo o mundo já experimentou. Um aperto no coração. Será esse o fim da paixão ou o começo? Tudo que repete cansa? E todas as outras pessoas do mundo? O mundo cercado de gente bonita. E eu aqui nesse sofá só consigo pensar em uma. Que preguiça! Que preguiça! De morrer a cada não e nascer a cada sim. Achar que devo sentir ciúmes. Achar que presença é inexprimível. Fazer mil contas, teorias e conjecturas. Se disse isso, talvez queira ter dito aquilo e esse aquilo ihhh.. Não me quer mais. Ô cansaço. Acho que não sei me apaixonar direito. Deve ser.

2ª versão

Hoje acordei com preguiça de me decidir. Que preguiça preguicenta! Há três anos me disseram: agora é só você escolher uma carreira que queira seguir a vida inteira. Ô, meu deusinho, me ajuda! Não tem nada nesse mundo que eu queira fazer repetidamente durante toda a minha vida. Nada. Nada que me prenda. Nada que me atraia. E eu acho incrível aquela pessoa que consegue se contentar com as mesmas coisas, nos mesmos horários, durante os mesmos meses e se seguiram os anos. Que preguiça de seguir um caminho para sempre! Que preguiça! Pensei em tantas coisas: serei médica e seguirei salvando vidas pelo mundo; não, serei professora e seguirei ensinando francês para alunos cariocas; mentira, vou ser jornalista e mudar opiniões; mas eu queria tanto estudar artes... Ô cansaço. Acho que não sei querer algo direito. Deve ser.

3ª versão

Hoje ainda não acordei. Que preguiça! Tô de cama. Ô cansaço. Acho que não sei acordar direito. Deve ser.


dezembro / 2012

cadeira jornal novela

Hoje é o dia mais triste do ano
E eu sentada nessa cadeira em Madrid
Queria voltar ontem de navio para o Rio
Para poder te dar um abraço
Ler contigo o jornal
E ouvir você me contar sobre a novela
Eu nunca gostei de novelas
Mas deixava você me contar sobre elas
Porque sempre gostei da sua voz
Voz que agora eu tenho medo de esquecer
Medo que fique perdida nos labirintos do tempo
Talvez a morte seja mesmo a pior coisa da vida
Ainda não sei. Tô tentando entender
enquanto junto aqui alguns pedaços
Nessa cadeira tão impessoal de Madrid


setembro / 2013

Nova velha Madrid

O velho e o novo andam lado a lado, agarrados. Que dia triste seria hoje se a gente não tivesse o amanhã no calendário. Que dia velho aquele lá que passou em 23 de fevereiro de 1998, não é mesmo? O que tinha naquele dia? Não sei, não faz mais muito parte da minha vida, apesar de ter quase certeza que viva estava nessa data. E isso não é assustador? Mas tá ali o velho e o o novo andando juntos, cruzaram a esquina. Em uma rua de terra, com casinhas brancas empoeiradas. Como uma casa inteira pode ficar tão empoeirada? Como objetos esquecidos num canto. Como se pode esquecer uma casa inteira num canto? Onde eu moro mesmo? Madrid. Moro em Madrid. Mas Madrid não é minha casa. Não reconheço aqui as calçadas e ladeiras tão bem quanto conheço as do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro parece agora ficar em outra galáxia. Aquela minha outra vida que vivi em outro milênio. Lembra quando eu vivi com 16 anos? Eu tinha o cabelo comprido demais. E sabia me entender com aquele cabelo, hoje não mais. Eu lembro que o enrolava várias vezes e prendia todo num nó, coisa que hoje já não possuo mais habilidade e esse gesto de dar nó no cabelo, antes tão natural, me parece pertencer a outros dedos que não meus. Hoje meus dedos têm o costume de encostar nas paredes por onde passa. Tenho uma vontade de sentir cada ambiente que piso e respiro. Passar os dedos me dá essa sensação de levar a parede comigo. Como se eu tivesse tirado dali um micro pedaço de poeira que constituía o ambiente. Como pode essas casas tão empoeiradas? Tudo aqui é velho. Velho demais para eu pensar de quando era. Mil quinhentos e setenta e seis. Madrid tem umas ruas pequenas com casas velhas, nas quais eu sempre me perco e sempre me acho. Encontro a cada dia um novo lugar. Tudo aqui é tão novo. Madrid te traz essa incrível sensação de estar sempre perdendo algo. Tem tanta coisa. Vida demais a cada rua que passa com essas casas velhas e empoeiradas de onde saem velhos empoeirados com seus cachorros igualmente cheios de pó. O meu vizinho chegava enquanto eu saía certa tarde. Seu cachorro, velho como o dono, subia as escadas com dificuldades e tossia como se fosse mesmo gente.

- Yo le dije que dejara de fumar, pero el no escucha. - me disse o velho enquanto girava a chave.

E eu ri ao imaginar um cachorro fumando. Por que não? Toda vez que passo pelo apartamento do meu vizinho vejo agora o cachorro fumando na sala de estar no final do corredor. E tudo aqui é tão novo. Esse é o primeiro cachorro fumante que conheci na vida. Até agora.



novembro / 2013

aniversário adiantado

Hoje completo vinte e três anos de América Latina
Mais precisamente, vinte e três anos de floresta tropical
Onde nunca faz frio e onde nunca as ruas ficam nesse tom de cinza
Como alguém que dormiu e nunca mais acordou
As árvores sempre estão repletas de folhas e frutas
Naquela calmaria de tarde quente chupando uma laranja
Vinte três anos menos cinco meses de Rio de Janeiro
Nunca tinha saído da minha cidade natal
Onde a gente vive preso sempre naquele mesmo momento de carnaval
Um calor insuportável, mil pessoas a sua volta, você espremido
No meio de tanta gente, samba marcando o ritmo do seu coração
A bateria anda, todo mundo anda junto e você não anda
É levado, já meio bêbado, já meio sem consciência
Pulando e cantando alguma coisa como "chora, não vou ligar"
A vida no Rio é sempre esse eterno momento de carnaval
O momento mais insuportável
E ao mesmo tempo o momento de felicidade mais pura em sua embriaguez
Hoje sinto falta do sol encostando toda manhã a minha pele
Das minhas praias, que continuam lá com suas marolas
Mas não faz sentido que o mar continue o mesmo
Sem que eu entre nele para dar um mergulho
Fazem mais ou menos cento e cinquenta dias que não entro no mar
A vida não é tão acolhedora no hemisfério norte
E não se pode viver sem respirar as ondas do atlântico sul
Aqui, no trem dessa nova cidade, sem nenhuma folha nas árvores
Eu saí do vagão justo no momento em que começa minha música preferida
Com os fones nos ouvidos, as portas do trem se fecham todas juntas no ritmo da bateria
Eu nunca tinha percebido que essa sincronia mecânica podia ser tão bonita
Foi nesse exato momento que percebi o óbvio:
Que a vida é esse eterno sentir falta de algo.



dezembro / 2013