Hoje completo vinte e três anos de América Latina
Mais precisamente, vinte e três anos de floresta tropical
Onde nunca faz frio e onde nunca as ruas ficam nesse tom de cinza
Como alguém que dormiu e nunca mais acordou
As árvores sempre estão repletas de folhas e frutas
Naquela calmaria de tarde quente chupando uma laranja
Vinte três anos menos cinco meses de Rio de Janeiro
Nunca tinha saído da minha cidade natal
Onde a gente vive preso sempre naquele mesmo momento de carnaval
Um calor insuportável, mil pessoas a sua volta, você espremido
No meio de tanta gente, samba marcando o ritmo do seu coração
A bateria anda, todo mundo anda junto e você não anda
É levado, já meio bêbado, já meio sem consciência
Pulando e cantando alguma coisa como "chora, não vou ligar"
A vida no Rio é sempre esse eterno momento de carnaval
O momento mais insuportável
E ao mesmo tempo o momento de felicidade mais pura em sua embriaguez
Hoje sinto falta do sol encostando toda manhã a minha pele
Das minhas praias, que continuam lá com suas marolas
Mas não faz sentido que o mar continue o mesmo
Sem que eu entre nele para dar um mergulho
Fazem mais ou menos cento e cinquenta dias que não entro no mar
A vida não é tão acolhedora no hemisfério norte
E não se pode viver sem respirar as ondas do atlântico sul
Aqui, no trem dessa nova cidade, sem nenhuma folha nas árvores
Eu saí do vagão justo no momento em que começa minha música preferida
Com os fones nos ouvidos, as portas do trem se fecham todas juntas no ritmo da bateria
Eu nunca tinha percebido que essa sincronia mecânica podia ser tão bonita
Foi nesse exato momento que percebi o óbvio:
Que a vida é esse eterno sentir falta de algo.dezembro / 2013
Nenhum comentário:
Postar um comentário