O velho e o novo andam lado a lado, agarrados. Que dia triste seria hoje se a gente não tivesse o amanhã no calendário. Que dia velho aquele lá que passou em 23 de fevereiro de 1998, não é mesmo? O que tinha naquele dia? Não sei, não faz mais muito parte da minha vida, apesar de ter quase certeza que viva estava nessa data. E isso não é assustador? Mas tá ali o velho e o o novo andando juntos, cruzaram a esquina. Em uma rua de terra, com casinhas brancas empoeiradas. Como uma casa inteira pode ficar tão empoeirada? Como objetos esquecidos num canto. Como se pode esquecer uma casa inteira num canto? Onde eu moro mesmo? Madrid. Moro em Madrid. Mas Madrid não é minha casa. Não reconheço aqui as calçadas e ladeiras tão bem quanto conheço as do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro parece agora ficar em outra galáxia. Aquela minha outra vida que vivi em outro milênio. Lembra quando eu vivi com 16 anos? Eu tinha o cabelo comprido demais. E sabia me entender com aquele cabelo, hoje não mais. Eu lembro que o enrolava várias vezes e prendia todo num nó, coisa que hoje já não possuo mais habilidade e esse gesto de dar nó no cabelo, antes tão natural, me parece pertencer a outros dedos que não meus. Hoje meus dedos têm o costume de encostar nas paredes por onde passa. Tenho uma vontade de sentir cada ambiente que piso e respiro. Passar os dedos me dá essa sensação de levar a parede comigo. Como se eu tivesse tirado dali um micro pedaço de poeira que constituía o ambiente. Como pode essas casas tão empoeiradas? Tudo aqui é velho. Velho demais para eu pensar de quando era. Mil quinhentos e setenta e seis. Madrid tem umas ruas pequenas com casas velhas, nas quais eu sempre me perco e sempre me acho. Encontro a cada dia um novo lugar. Tudo aqui é tão novo. Madrid te traz essa incrível sensação de estar sempre perdendo algo. Tem tanta coisa. Vida demais a cada rua que passa com essas casas velhas e empoeiradas de onde saem velhos empoeirados com seus cachorros igualmente cheios de pó. O meu vizinho chegava enquanto eu saía certa tarde. Seu cachorro, velho como o dono, subia as escadas com dificuldades e tossia como se fosse mesmo gente.
- Yo le dije que dejara de fumar, pero el no escucha. - me disse o velho enquanto girava a chave.
E eu ri ao imaginar um cachorro fumando. Por que não? Toda vez que passo pelo apartamento do meu vizinho vejo agora o cachorro fumando na sala de estar no final do corredor. E tudo aqui é tão novo. Esse é o primeiro cachorro fumante que conheci na vida. Até agora.
novembro / 2013
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